domingo, 15 de novembro de 2009

*Lunar

sábado, 11 de julho de 2009

um



Foto: Cátia Burton

um


desconheço o amor
como única verdade
e só então renasço,
intrépido e inédito

e sob os fragmentos
de uma nova primavera
ressurge, silenciosa e singela,
esperança que me regenera
da prima devastação

parece fácil
se revelar estranho
pelo simples fato
de ser desconhecido

parece árduo o mergulhar
no azul opaco dos olhos rasos
daqueles que amam
e desconhecem serem amados

sou gesto
em mundo de palavras vãs

aquarela
em mundo monocromático

um milhão de raios
em um dia ensolarado

parece fácil escapar
da iminência de ser comum
parece tão fácil
se afirmar e não ser só um

me abrigo em teus braços
mares que desconhecem a dor,
nem tudo no mundo é estranho,
desamor


Wagner Miranda

domingo, 7 de dezembro de 2008

o amor segundo a vida


Foto: baikonur_cazaquistão, por Tuca Vieira
http://www.fototucavieira.com.br/

o amor segundo a vida

não, não vou lhe contar sobre sonhos
não quero ter pressa nem palavras
pois bem sabe, são bens de poetas
e de títulos não quero nada

e belas, estrelas para sempre perecem
sonhos nem sempre são irmãos
palavras nas estradas que desaparecem
viram presente para a solidão

a ti abro meu coração, vasto universo
vivi e senti o doce aroma do vinho a tingir
a primavera mais bela do que ela, solidão

a tremeluzir, a aterrisar
no azul imenso
de uma tarde qualquer

esperança, desabrocha sem demora
tardia estação que ainda mora
inocente e inerte no espelho cristalino de teus olhos
abrigo de tua,de todas, de minha alma

e mais tarde, quando tudo deu sinal de acabar
senti querer nunca existir, deixar de respirar
hospedei aperto no peito, desconcerto
amanheci para chorar

me vi ante a imponente face do destino
que em desatino enrubesceu
talvez nunca tivesse visto
algo tão imenso em tão pequeno recipiente
pequeno ser de carne e ossos, porém transcendente

disse a ele, em tom sereno
- tua presença não me acanha,
pois seguirei meu caminho

saiba que bem longe ela me espera
e sob o sol se banha, sob ondas descansa
a mais bela força da natureza, amor meu

e o que deuses não fazem
diante de tamanho milagre:
o amor segundo a vida
suave e transparente,
como a brisa do ocidente

pediu apenas
que ali deixasse minhas malas
pois era longa, ah como era longa
aquela estrada

parti.



Wagner Miranda

terça-feira, 30 de setembro de 2008

imperfeito


Foto: Leave me be, por Leonie²

imperfeito

em noites sem sono velado
hesita o sonho ora sonhado,
ora em vão

assim como amores e dores
que no verso e no verão,
surgem e partem,

simplesmente se vão

confio no amor doce abrigo
seria o mesmo de fato sentido?
se eu tão somente amasse
e amar em si já não bastasse?

seguiria são e sereno
vão e assaz tenaz
nítido e pleno?

perdida a inocência
entre a razão e o juízo
que como Narciso se reflete
na volatilidade da água e se perde

engolido pela vaidade e pelo vazio
destino de todo aquele que ama,
doce prejuízo

permaneceria denso em sentimento sob a noite fria
ainda a sentir o calor de teus laços
vitimaria a cada dia a solidão
com uma injeção letal e diária de descaso

é obscuro dizer amar
ao mesmo tempo sendo
um porto seguro
prefiro apenas voltar meu olhar

e em ti pensar
como algo além da esperança
pois na certeza de teus olhos
repousa a minha insegurança

Wagner Miranda - 29*09*08 - 00:24

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

o albatroz



Foto por http://www.flickr.com/photos/acetosa888/


o albatroz

vê, onde com tão frágeis asas
Ícaro inda menino
foi se esconder?

voa, desenha o riso mais bonito sem aviso
um risco no impenetrável azul
do céu adornado de verão

aprende, e comigo apreende
o mundo de significados
que semeamos no acaso

abriga sob frágeis asas a esperança,
ainda criança, ainda perdida
sem saber de onde vem o sonho

e tu, por tão pouco
reluz como ouro

quando este mundo enfim ruir
com olhos úmidos de compreensão
hei sobrevoá-lo como ti

que desperto, levanta-se
parte sem espera e ágil recomeça
sua jornada rumo ao sol

contorna e recorta a nuvem mais densa
reinventa tua existência

sangra no espaço um traço,
um rastro, uma prece
a um novo dia, um novo ser
que amanhece

prenuncia no horizonte
uma eterna volta para casa
no doce mover de tuas asas

se bem lhe ouço,
sei que ouço com minha alma
enquanto sorri gentil a face da manhã
por tuas asas acariciada

não é doce a dor do exílio
também não é de todo acre
o sabor do saber estar sozinho

parte veloz, ó rei do azul celeste, albatroz
para longe da mira de teu algoz,
de alma comum a todo um mundo atroz

expira a tua nobre alma
junto com a última gota de esperança
que emana de teu coração perfurado
pelo mais grotesco dos artefatos

agora pousa, com graça e brio
mesmo em desgraça, ferido
e permite ao destino criar teu filho
agora sozinho, a te esperar em um ninho

bravo não é Prometeu, és tu, ave graciosa
que desafia a gravidade de viver
de maneira majestosa, em pura essência

bem sabe que humanos são seres profanos
que seguem abrindo lacunas, buscando preencher
o vazio da existência

Wagner Miranda

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

micro filme [4:45 a.m.]


Foto por lifeisBuddhaful

micro filme [4:45 a.m.]

ainda a ver o céu barroco
de diamantes decorado
diante dos meus olhos raros,
desacordados

te amo com efeito,
além do certo e do errado

é doce o teu balbuciar
a ressoar e importunar
o egoísmo do meu sono,
implícito

da sutileza ao estrago
como é vasto o espaço
e não há busca, bússola
ou endereço que me oriente

me guio eu mesmo
com minha própria calma,
capturo em essência
o reflexo da tua alma

e sôfrego, me aconchego em teu seio
e apenas o aparente vazio,
de fato cinismo do silêncio
para incitar e desvelar

em ti despertar o que parece óbvio
teu soberbo observar
nosso diário compactuar
um compêndio, doce veneno

mesmo pelo cotidiano tragado
acordo para um sonho,
tão concreto quanto um afago
um mundo de fato,
resumido em teus braços

além de qualquer destempero
ou incerteza
permanece intacto meu pensamento
tela pintada com as cores raras
da tua beleza

desperta docemente banhada
pela luz do poente
imponente de tão alva,
magnificente

aquarela se revela em minha alma
e tão bela quanto ela,
se desvela com toda calma


força da natureza
em um moderno conto de fadas
amanhece sob a luz que lhe enaltece,
minha amada.

Wagner Miranda

domingo, 20 de julho de 2008

glacial



Fotos por "3amfromkyoto"
http://www.flickr.com/photos/3amfromkyoto/

glacial

parte 1

volto a navegar
em mar de águas rasas
salgadas em milágrimas
eu, que costumava tanto te amar

Ó, mar…

de fronte,
o porto desperto
pela adocicada e cortante
brisa glacial da manhã

inda hei de acreditar
no amanhã?

de fronte,
um mudo olhar
o turvo horizonte
a paz que reina
ao longe, plácida

a chuva ácida
fez perecer
as flores
que tanto amava

e me banhou
em dores
bem sei
a elas jamais verei

e também a ti
e é tudo um mundo, eu sei
sem fundo, sem espaço
e sem fronteira

uma geleira
como é frio
o vazio deixado
no vago

e às vezes
esparso
espaço
entre meus braços








parte 2


idos de maio
abrigam-se
na sombra residual
do que fora a noite

quase tudo se foi,
tanta dor é
e já foi passado

é só solidão
é minha confusão
retratada em sépia,
em câmera lenta
revelada sob os fortes raios
ultravioleta

novo dia
inda refestela-se
diante do sol matinal

é bárbaro,
ouvir da folhagem o estalo
a natureza a renascer
a lembrança a permanecer
em gotas de orvalho

se de soslaio
ainda lhe vejo
na soleira da porta
de minh'alma,
sua eterna casa

não contenho o riso,
vestido em saudade
fito teu reflexo
translúcido
lentamente a surgir

assim como raios de sol
que partem a cortina de brumas
frágil, porém espessa
que também é vívida,
que também é leveza,
de uma extraordinária beleza
.
alimento aos olhos
de uma estrela solitária
que reflete enquanto descansa
no meio do longo caminho

perdida na jornada
de volta para casa
.
[fim]
______
Wagner Miranda

quarta-feira, 9 de julho de 2008

ponto de fuga número um


"The lovers", por René Magritte, 1928


ponto de fuga número um

odiamos
o terrorismo cult
do nosso Estado

o academicismo
intelectualizado, indiscriminado
em paredes ocas,
dependurado

coagulado
o idealismo juvenil
de outrora
ah, doce aurora

tudo o que era vivo
não mais inspira cuidado
foi tudo em vão
jogado fora

e agora?

status quo
hereditário
do estado em que sonhamos
acordados,deslocados

desolados

repousa
esta sua mente
por um instante

também repousa
o gigante,
sentimento nobre
empoeirado em estantes

da janela
observamos amantes

sentados, fitam o lago
já sem peixes,
contaminado

declaram amor
a seus planos,
sonhos brilhantes emanam
de estrelas mortas

banham-se em luz artificial
a mesma que varre as ruas
imundas da cidade

em busca de sobreviventes,
de novidades

devemos mesmo
ser tudo aquilo
que não queremos?

voltamos ao nosso quarto
nos entreolhamos aninhados,
amantes alinhados

pelos anos compartilhados,
brindamos e brincamos
assaltamos nossas lembranças
sorrimos e acenamos

e um futuro de imprevistos planejamos
depois disso, partimos
pela janela do quarto

cansamos daquele cenário
urbano demais para ser humano
este é o nosso último ato


Wagner Miranda

domingo, 29 de junho de 2008

carta a um sonho, poema ao mar


Foto por Luciana Teixeiras

"E todas estas feridas me ensinam meu amor"
J. Genet

carta a um sonho, poema ao mar

olhares são abraços
a cada segundo de contemplação
és felicidade a apenas um sonho de distância
e vem como o vento,
suave e lento que sopra nos montes
da natureza a mais bela orquestração
o ocaso no horizonte
és estrela maior em ascensão
a paz delineada em teus braços
laços, com perfeição torneados
flores verdadeiras sobrevivem
a qualquer estação
a toda e qualquer idealização
e comigo hei de te levar
onde quer que eu possa errar
na aspereza do asfalto
na imensidão do mar
adiante e confiante
etéreo e disperso como o ar
carrego a cicatriz de tua lança
em meu coração
amar é não saber da sabedoria
muito menos da razão
é ver estrelas pela abóbada da mente
flores verdadeiras sobrevivem
a qualquer estação


Wagner Miranda

terça-feira, 24 de junho de 2008

canção de um coração só


Foto: Heart-shaped, por Ana Paula
http://www.flickr.com/photos/analoca/

canção de um coração só

corações são artefatos
cuidadosamente confeccionados
a ferro e fogo forjados

para serem polidos,
para serem quebrados
de fato

e mesmo sob a luz da compreensão
condicionados entre o sim e o não

ao mesmo tempo são apenas o que são
frágil músculo de cor vívida,
mecanismo da vida
pré-requisito para toda a ação

quando correspondidos em alguns momentos
metaforicamente mudam de função
bombeiam alegria, espalham adrenalina.
se tornam mais do que realmente são

por outro lado, são de construção frágil
de conteúdo volátil

caminham lado a lado, empáticos
com o espírito
nos momentos serenos
nos momentos mais extremos

facilmente alvejados
quando apaixonados,

são alvo fácil da inocência
daqueles que vêem beleza
em suas próprias tristezas

razão de ser ou não ser
de deixar fluir o amar
ou seu fluxo bloquear
com um nó

deixa um soluço escapar
um sussurro encantar,
canção de um coração só


Wagner Miranda

quinta-feira, 19 de junho de 2008

ruído branco


Foto: Water, por quizz: http://www.flickr.com/photos/quizz/
_
ruído branco
para L.B.

incrível é poder dançar
na escuridão
sem deixar de sonhar em cores
diante do ruído branco
da solidão
_
Wagner Miranda

auto-reflexão em alta definição


Foto: Alto contraste, por Wagner Miranda

auto-reflexão em alta definição


a meu ver
viver
continua a ser
aviltante

interrompa
a transmissão
neste impreciso
e ao mesmo tempo exato
instante

...

Wagner Miranda

domingo, 15 de junho de 2008

réquiem (uno mundo)



Foto: returning to the same ocean, por Ali Khurshid
http://www.flickr.com/photos/alikhurshid/


réquiem (uno mundo)

a vista
estanque
avista o distante,
tremeluzente ocidente

o curso do rio
o horizonte,
docemente

abrigo de memórias
malas prontas, mesa posta
a paz caminha pelas margens,
pela costa

a respirar
brisa do mar,
a inspirar

o sopro da vida
me consola

multicolores
sentimentos caleidoscópicos são

todos vividos
uns, porém vívidos
outros pelo tempo perdidos
tantos outros em vão

fragmentos de outro outono
as mesmas folhas caídas,
envelhecidas
o abandono

finos galhos,
fortes remos
braços são

para avançar contra as ondas
de violência,
de amor, de descaso
da solidão

lágrimas escapam
de olhares que estilhaçam
pois alguém lhes disse
-É tarde demais

fitou o amor,
sem podê-lo tocar
criou canções
que nunca pôde entoar

invejou e amou o rouxinol
pelo encanto de seu canto
pela arte de voar

segue, rumo a terras distantes
a remar e remar

a inspirar,
expirar

inspirar para não expirar

suas órbitas cansadas são pérolas

enxergar sempre foi uma dádiva

a inspiração, uma folha em branco

o acaso, o vento

o rio expele
tudo o que lhe é estranho
traz à tona

filhos de náufragos

desastres oceânicos

hei de resistir
às suas queimaduras,
labaredas da tristeza

hei de respirar
com pulmões saudáveis,
mãe natureza

hei de sobreviver
a explosões nucleares

espelhos quebrados,
seres fragmentados
sorriem e procriam
em uma velocidade fascinante

dizimam nações,
nomeiam estrelas
almejam um dia tê-las

metralhadoras giratórias
tingem o rancor de vermelho escarlate
vermelho sangue,
vermelho desespero

distribuem posições, ilusões
ouro de tolo do maior quilate
a todas as nações

a pequenez do mundo
mais uma vez observou
através da lente trincada do amor

ah, o amor

que para si um dia sonhou
e outro mar chorou
para que dali pudesse partir

mas estava cansado demais para remar
não tinha mais medo, mas tinha certeza
de que sozinho não venceria a correnteza

disse adeus ao seu porto e ao mar
pegou carona nas asas e no canto
do rouxinol que tanto amava
para nunca mais voltar


Wagner Miranda


quarta-feira, 11 de junho de 2008

le petit papillon


Leaves Photogram, por Catherine [cedar_9]
http://www.flickr.com/photos/f777/


quis saber do teu olhar
que vivo a procurar
sob a luz parca,
que ilumina minha madrugada

conforto, porém
só encontro
quando lhe vejo
ou quando fecho os olhos
e com fé desejo

procurei
nos odores das flores
no perfume do campo, de lírios
algo fiel ao que sinto,
algo além de qualquer delírio:

o alívio que me traz
teu sorriso aveludado,
teu corpo ao encontro do meu abraço
abraço de amor declarado,
amor partilhado

quis saber dos teus planos
quis verter o cotididano
na plenitude de viver
o que sinto com quem amo

para do sonho enfim despertar
feliz por proclamar
que tenho um novo lar
_
voa, meu denso pensamento
como a pequena borboleta
que os cabelos dela enfeita
pousa, onde repousa
o mais nobre dos sentimentos

agora bem sabes
que de tão bem lhe querer
desejo apenas em teus olhos
encontrar o meu alvorecer


Wagner Miranda

sábado, 7 de junho de 2008

|elipse|


Foto: Broken, por bitefight
_
elipse

micropartícula
deste vasto universo
não mais espero
por mero desatino do destino
pela obviedade do tempo, indistinto
intervenho
irrompendo
no solene repouso do silêncio
revivendo,
reinvento
o caos do momento
não me despeço
não me disperso
traço o eixo sem paralelo,
do meu universo
desconexo
_
Wagner Miranda

terça-feira, 3 de junho de 2008

O Outsider


Foto: Penumbra, por Austin Tolin
http://www.flickr.com/photos/austintolin/


O Outsider

I

distante, urgente
da margem a observar
o novo passado,
o velho presente

dá margem,
interpretar
estático a observar
o lutar das ondas do mar
disformes a desgastar

rochas imóveis
fadadas
ao eterno
repousar

desafia a inércia,
poder da expectativa
e a estética
mesmo estático

não cede,e prossegue
neste estado
filho bastardo de seu tempo,
tempo de maus tratos


II

em sua eterna andança,
aprecia a bela dança
dos pássaros

aparentemente de passos
milimetricamente calculados
ensaiados

bailam no azul profundo,
magistral
para outros, teto do mundo
em interpretação marginal

caminha descalço
sobre areia cortante,
disforme, diante da intempérie
nem tudo o que reluz é vidro,
e mesmo assim fere

III

segue, a maltratar
o vazio de cada dia
o vazio sentido
que empregamos
às nossas vidas

uma pura mentira
um brinde ao medo
ao puro e simples medo
deste nosso momento
indubitavelmente terreno

alguém que dá formas a sentimentos
transforma-os em beleza
diante da cacofonia de lamentos
do nadar contra a correnteza
do medo, do diário tormento

esculpe o viver,
como não proeza
pois herdou do artesão a destreza
de dar vida e formas
a árvores mortas

a um novo amanhecer
que o mundo não vê

diz a si mesmo,
diz a ti, a esmo

- O mundo está morto!

e segue em pensamentos, absorto



Wagner Miranda

segunda-feira, 28 de abril de 2008

miríade de estrelas



Foto: Beatriz Rodrigues http://www.flickr.com/photos/plumocancer

miríade de estrelas

me enterneci em teu olhar estático
miríade de estrelas
me redescobri em sonhos,
a te aninhar em meus braços

vislumbrei cada segundo
e em prazeres vis
encontrei meu lugar no mundo
em lábios tenros e eternos, gentis

lhe descrevi com maestria
em palavras nada poéticas
pois nada disso
era tudo o que eu tinha

relato meu nobre desejo
intrerrompo meu longo caminhar
encontro abrigo em teu seio
e me ponho a descansar

me embriaguei
com o silêncio da noite fria e do pensamento
contra toda a calmaria que à minha porta batia
não me esqueço, não me condeno

me perguntei aonde tal sonho me levaria
implorei por um pouco de alento
enquanto minha vida decidia
ao me fazer caminhar sob a perversa e fina garoa

lhe despertei de teu sono com um beijo
prematuro e inconseqüente
despertei de meu sonho
agora não mais lhe vejo

e se errar é de toda forma possível
por teu bem lhe digo
que o amor não faz sentido,
se apenas sentido como figurado



Wagner Miranda

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Subversão da submersão (d'além-mar)


Foto: Lonesome, por Nekominn
http://www.flickr.com/photos/tanktv/

Subversão da submersão (d'além-mar)

sopro a consciência,
para além do cais
e com ela também se vai
a aquiescência,
a negação da ciência

os pontos cardeais

errando, em desatinos
em um barco, cujo casco
está para sempre partido
partido

mergulho por entre corais
tão belos e frágeis, mortais
tão logo penso em voltar,
pois em tudo vejo mar

por um momento esqueço
o navegar
e me deixo naufragar
sem me queixar

por não saber diferenciar
oceano, mar

e ao retornar,
repouso sobre o dorso da onda mais mansa
de ventura abundante, sem deixar que se abrande
a chama crepitante da tua lembrança

da tua lembrança, meu abrigo
que arde com chama e descansa
em meu peito cativo

chama da vida
que para a superfície me chama

seremos então
para sempre como o porto?
a ver o haver mal chegar
e tão cedo partir?

a assistir
aparentemente vivo, porém passivo
a tudo aquilo que ainda lhe é novo
submergir?


Wagner Miranda

domingo, 20 de abril de 2008

A poética da violência


Foto: Stop them forever, por Wagner Miranda

A poética da violência

I

hesitou
diante de mais um
amanhecer
ao ver o sangue
inocente
de muitos

pelo ralo do mundo
o vasto
o impiedoso

escorrer

e em tudo o que pode ver
o que mais poderia me dizer
sobre viver?

o sobreviver

e no teu riso
vejo crime
para muitos, castigo

por um crime
não cometido

por um momento
ofegante,
de seu berço, distante
culpou o destino

por ver a si mesmo
fugindo, perdido
por ter crivado uma bala
no peito de seu melhor amigo


II

vivemos em uma terra
em uma era
em que respirar
se tornou um risco

enquanto sua rival, a morte
nos escolhe a todos
por livre arbítrio

as balas varam o absurdo,
o impossível
no meio de tudo isso
caminha, caminhava
tua honra, perfurada

em direção ao desconhecido
o destino

adiante
no caminho sem volta
tua esposa sangrava
com uma bala alojada em seu frágil ventre

onde guardava teu filho
fruto do que plantara
teu vínculo único
com esse mundo

sangrava
sem saber
que com sangue brindava
o sofrimento,
o absurdo


a vinda ao mundo
e a incerteza de mais um
futuro


III

e como muitos,
andaste em desencanto
sob o sol, a chuva,
o céu em prantos

meteórico,
passaste tão depressa
sem deixar rastro de sua
sua demência
e a confusão a jorrar
de um peito
um alvo
a consciência

e teu sangue se entorna
quando torna a ver o reflexo
de ti, homem morto
maltrapilho
em prédios espelhados

nas vitrines da cidade
e se lembra de todos a quem rejeitou
o pedido de clemência
o último pedido
o último suspiro

IV

sozinho observa passar
o famoso trem de falsa prata
pelos trilhos de ouro
da metrópole
advindos de nosso suor

e a escadaria, antes imóvel
agora se move para o meu conforto
E contigo seguimos,
tudo por um passo à frente da dor

V

e não há ciência
que faça sentido
diante do milagre
da violência

que não protege,não evita
o vírus que se dissemina

e hoje, a muitos incrimina
pelos golpes desferidos

em nome de tua cólera
e em termos lhe compreendo
e contigo lamento

em sua solitária volta para casa
em teus olhos a brasa
da vida consumida
pela chama crepitante

do revolucionário
com seus sonhos juvenis de liberdade
do desconsolo, o que lhe resta?
o viver sem lutar
o viver em um lugar
onde o homem engana
a própria realidade

quisera clamar aos céus
para que tivesse uma vida menos patética
mas é tarde demais
loucos são os que sabem quem são
e sentem escrever suas palavras em vão
sua vã poética


Wagner Miranda

sexta-feira, 28 de março de 2008

1968


Foto: Dark Angel, por Dub Photos
1968

na terra dos subjugados
ouço anjos, mutilados
a roer os grilhões
do tão falado, aclamado
mundo racional

notícias os contaminam
rapidamente, disseminam o mal
o nada simples de fato,
o ato

a descrição da assombrosa discrição
de um ato criminoso,
contradição, o sofrimento a emergir
o medo e o novo,
fundadores de uma nova religião

vestem com seriedade, de trejeitos
as encobertas atrocidades
os fins, meros pretextos
para as eternas meias verdades dos meios

na terra dos subjugados
ainda vejo muitos,ilhados
em meio à turbulenta tempestade da informação
devaneios da comunicação

anjos, mutilados
nem mais pelo sonho
confortados
milhares de corpos
em notas e relatórios
naufragados

na imensidão do inevitável
caos pelo homem criado
em horrores, meticulosamente calculados
em mar revolto de sangue, mergulhado

algozes atrozes
em seções extraordinárias
senhoras retóricas vindas à luz
com o abominável mundo novo
novo mundo, admirável!
_
Wagner Miranda

sábado, 15 de março de 2008

em cores


Foto: end of summer, por jazzgohan
em cores

não deixa rastro teu amor
por ter sido vasto o caminho
trilhado por um passo além da dor

sair um dia então, para avistar
o quebrar das ondas do mar
hei de partir, hei de voar

e ao ver o nascer
de uma nova aurora,
bondosa a me saudar

reviverei tudo o que vi
e vivi de forma meteórica

e minha volta brindar
com abraços e sorrisos
de meus incontáveis amigos

parceiros de sonhos
e ideais antigos
sonhos de revolução,
de desilusão

vivamente retratados
na minha mente
lembranças de uma vida
jamais vivida em vão
.
e contra o vento
eu digo, eu sei
que minhas cores são mais vivas
e com elas pintei o céu que agora contemplo

vivacidade para além da
compreensão
das cores nada abstratas
do sim e do não

daquelas que marcaram o fim
de mais uma primavera
de um novo verão

Wagner Miranda

sábado, 1 de dezembro de 2007

em sua desventura


Foto: Estrela-do-mar, por Hanna Brugnolli
em sua desventura

me encanta
teu desencanto com o mundo,
seu traidor
e mesmo na ausência de toda sorte,
na presença de toda dor,

lhe oferece em troca teu riso,
uma declaração de amor
meu passaporte para um lugar
onde tudo faz sentido, um abrigo

onde nuvens
não são feitas de algodão doce
elas têm sim, diversos sabores
que nós, homens
jamais saberemos descrever

sozinha não está,
a caminhar e se admirar
com a beleza das rosas e das estrelas do céu e do mar,
veredas

contigo estou, em sua desventura
de quem sem saber procura
pelo simples absurdo
de fazer e ser feliz

a tentar imaginar
como são
os frutos gerados
pelas sementes da imaginação

sou às vezes amigo de minhas palavras
refém de um turbilhão de sentimentos
e de tudo o que se move, a todo momento

momento em que tudo o que sabemos
é que nesse mundo não temos espelho

quero que saiba ainda assim
que o não proferido será sempre mais rico
não por ser o óbvio não expresso
mas por ser a demonstração do quão belo
é o ato de saber contemplar

e é pelo haver
por ter tantas palavras
que eu lhe digo

lhe descrever em sua plena ternura
é minha desventura
o impossível
impossível

Wagner Miranda

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Andarilho



Foto: Wagner Miranda

Andarilho

I

O mundo, imundo
não pode lhe ajudar agora
Levanta-te, pois sabes
que já é hora
de mostrar coragem

Não sabe por quanto tempo tem andado
em sua longa viagem
E do teu sopro da vida mendigado,
quanto lhe resta?

Indignado
Não herdaste
dos poucos a boa-sorte
Nem tem passaporte
para a morte
que habita velhas ruas estreitas

Sombras esguias
não lhe provém conforto
Eu sei, não estás morto,
mas mesmo assim precisa descansar

Compreendo seu desalento
pois como eu sabes
que a morosidade da cidade
aos poucos nos mata
Veneno se propaga

Lhe pergunto o que sabes
sobre o teu destino
em um momento de devaneio,
desatino

Mas logo desisto,
pois vejo que tudo que nesse instante se deforma
dá forma
ao teu sentimento



II

Sou aquele que vê o sol nascer
da janela de um trem
Aquele que sente
a dor de uma maioria,também

Dia após dia
madrugada adentro
Sangue, suor
preces, lamento

Aquele que aperta o passo
para ao meu destino chegar
antes dos primeiros raios de sol
Antes do mundo me enxergar
me condenar

Pareço até temer esse mundo
e eu o temo

No pôr do sol encontro a tristeza
Quando a noite cai, digo-lhe:
-Decifra-me!
E ela me devora,
com todas as minhas fraquezas

Digo ao mundo
para que quando me vir,
não acene, não encene um acaso

Pois nem a estrada,
nem o sono perdido na madrugada
Irão me mudar
Não, não

Nem armas à mostra
Nem tão longe que eu possa
caminhar

Nem corações feitos de pedra
Nem a tristeza que nos traz a guerra
Nada vai me mudar


Wagner Miranda

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Paisagem


Foto: Sunset Silhouette, por Prescott
http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=358174239&size=l


Paisagem


Vestiu a paisagem
com extrema beleza
e com destreza,
transformou tudo em torno em ouro

E mais e mais verdes
tornaram-se as colinas
antes ruínas,
agora coloridas

Pela nova estação
por ti trazida

Pois és serena,
mulher,
natureza

Rainha
do meu tão falado oceano
Cura para o meu desapego
com o mundo,
meu desencanto



Wagner Miranda

sábado, 10 de novembro de 2007

Marianne


Foto: "The way he never touches you", por Bea Rodrigues.


É horrível assistir à agonia de uma esperança.
Atroz contradição a da cólera; nasce do amor e mata o amor.

Simone de Beauvoir

Marianne

Pilulas,
Antidepressivos
Ela quer perder o controle,
vencer o juízo

Amor,
Ontem tão doce
Improvável de acontecer
Hoje, algo que infelizmente tende a crescer

E ela tenta se desvencilhar da dor
De qualquer maneira
“Sou como Virginia Woolf", devaneia
Mas o tudo o que vejo é nada, o nada
.
E um rosto
em um fosso
solitário

Dança,
Como uma pequena criança
Radiante, até que a noite se faça distante
Às vezes ela sabe causar furor,
Definitivamente, sua arte é causar furor

E em seus sonhos, tem o poder de amar
Os maiores poetas de todos os tempos
seus amores, autores de todos os livros
aos quais pôde se dedicar
.
Mas na vida real,
Só pode ter ao seu lado
um pobre garoto,
mais um belo rosto desolado
.
Para com ela se embriagar em uma espelunca
Até que a noite a consuma
Até que a noite a consuma
Até que a noite...

Amar de novo?

Mas como, se agora ela só acredita em amor materno?
Ou talvez naqueles descritos em livros
Mas nem os livros são eternos

Ela não acredita mais em coisas assim
Por isso se afoga
Em mares e mares que chora
Um sem fim

Pois não há
Mais tempo para ficar
debruçada na janela, à espera
de um Anjo bom e gentil

Violada para sempre,
inocência pueril
A única que poderia
lhe salvar a vida, de vez
Marianne, o que foi que você fez?



Wagner Miranda

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Despertar


Bust, por Ah Xian

Despertar
para J.J


I

Estivemos a esperar
pelo seu despertar
Bem no fundo, a saber
que palavras de ordem
não podem
te parar

Por onde esteve,
quando ausente?
- Vagando pelos verdes campos
de sua mente

E como resposta,
deu as costas ao velho mundo
Um mundo
de tantas faces e falares


Que fez da violência
seu conceito de cidadania,
pacto
de sobrevivência

Esteve enfurnado
em um quarto
cansado
de vislumbrar o sol frio, magistral
pintado sob o seu telhado

enquanto deitado, entoava
em tom teatral
uma canção a si próprio


em um momento
de pura contemplação
ao teu universo,
puro e inócuo


II

Usam contra ti
o poder e a glória
a fúria e o som
de palavras muitas vezes frustradas

Eterno confronto
entre mundos
hoje retrato
emaranhado de grandes obras

E quem é que vai espalhar tuas cinzas
pelos verdejantes verdes vales da complacência
se a consciência, para ti
agora não passa de um vale distante

Tardiamente resolveu
se decepcionar com aquilo que tão bem conhece
Aquilo que delimita, como um profeta
Quando, com os olhos do grande poeta
viu o mundo através de um diamante

Triste hora aquela
em que viste apenas sombras
a se multiplicar


Triste hora aquela
em que zombaste
da passividade
do que passa


Diante da janela
daquelas pobres almas
E os passos lentos to passado
Se disfarçam de cura

Que eles avidamente consomem
É assim o mundo?
Não! Assim é o homem!!!

Loucura
cura?



III


Ouço tua poesia os assombrar
nos mais diversos idiomas
tua voz, como vento a soprar
pelas ruas
apenas ela, suja

ao som de tambores
surrados
como um doce(?) açoite

enquanto o rio
por vezes
turva
mas a vida prossegue
e com ela
ele revolve
e segue

seu curso natural



IV


E para muitos,
és filho pária
de uma pátria desalmada



Legítimo fruto da farsa
da democracia
familiar

És transparente,
agressivo
teu realismo é imoral

Refugo social!

Onde esteve,
enquanto ausente?
pelos caminhos tortos da Capital
A seguir, pelas Margens,
para o bem e para o mal

Observador, pintor
Autor da história, do relato, imagem
de toda uma decadente linhagem?

- A colecionar sonhos baratos
enquanto aquele lhe abolira
no passado
agora repousa
ali, assassinado

palavras de ordem
não podem
te parar




V

quantos sonhos
se constituem
a partir de uma vaga,
por vezes singela
promessa?



e da promessa,
se constrói, se molda
o outro, o amanhã
que como os becos, lhe acomoda


lhe ignora
lhe corrói

E veja bem
o neo-narcisimo
o niilismo

Obrigado,
mas estou farto
do falso lirismo


dos tempos de guerra
do silêncio
da mágoa
e do Ego, que vocifera



VI


-Vejo esperança como o etérea
Pois então como pode,
no meu vagar
por entre terras e mares

Continuar viva em mim?

Se é ela que insiste, não me queixo
Se sobrevive diante do ódio,
És verdadeira
Parte de mim

Vejo daqui sorrir
o poeta,
mesmo descontente
que observa o mundo
pelas frestas de sua alma


Sua janela
Que no mundo sofre,
por tanto saber caminhar


Por viver sem saber
quem é hoje
o que foi ontem



EnFIM



-Haverá mais sombras
ou telhado de estrelas
sobre o teu jardim?




Wagner Miranda

sábado, 29 de setembro de 2007

Oceano


"Dancing" - Picture by Maddý, my Icelandic friend. Thanks a lot, girl! :-)( http://www.flickr.com/photos/madron/ )

Oceano


sentimento
resplandecente
lentamente preenche
teu vasto espaço,
coração

como os tênues, finos
pingos de chuva
pintam de azul
o soberano

Oceano

e o tempo todo,
eu insisto, ouso
em te comparar
com os elementos essenciais da natureza

bem sei, não deveria fazer
comparações desse tipo
simplesmente porque
nasceste como eles,
daquele mesmo ventre

tão pura,
de tantas belezas e sentimentos,
em momentos
tão prematura

e todas noites
quando me vejo em ti
imenso mar,espelho

a desenhar as estrelas
que brilham no meu céu
e entre nuvens dançam,

para meu contento
me encanto,
meu espanto

encontro
minha própria paz de espírito
e você bem sabe,
fazes parte de tudo isso

tempo dança
diante de nossos olhos
entre lembranças, vinho tinto
e esperança

e não há
mais confusões
para me importunar

apenas
bela, a luz
a emanar
do meu de olhar
cansado

enquando o mundo
tanto pesa sobre meus ombros
uma luz brilha sobre mim
sobre ti

me rio,
me faço grato
podes ouvir?
e isso parece tão claro

ouça meu canto
enquanto lanço
sortes e versos,
preces ao mar

por um segundo,
me pergunto
onde tais preces irão desaguar
até me lembrar
_
de que a correnteza é a melhor resposta
sempre sábia ao me dizer
que ainda não é hora
de aportar

sou navegante
guiado por ti, errante
pelos caminhos sinuosos
do amor

você, minha pura e doce salvação
estandarte para o amor
primoroso verso
da mais bela canção

motivo
pelo qual vivo
nesse mundo frio,
arredio
_
Wagner Miranda

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Toada




Imagem: Autumn Trees, por Egon Schiele (1911)


Toada

Amada etérea
Beleza eterna
Repousa
Em cada movimento

Voa, toada
Como a folha ressecada
guiada pelo vento
Chega até minha amada,

Em sua mais bela forma
Alento

Mas ela renasce
Todos os dias
No despontar de cada
raio de sol

Me traz notícia,
página de jornal
Enquanto lembranças ecoam
do meu quintal

Natureza morta
Folhas de outono
desprendidas
diante da minha porta

Ó, Sol poente,
Ó, Estrela cadente
Vede, que nem a Lua sorri
Queria ela
que Primavera
estivesse aqui!



Wagner Miranda

sábado, 1 de setembro de 2007

Canto



Foto: Wagner Miranda

Canto


Triste agora,
amigo poeta?
Palavras tão belas lhe fogem pela janela

Insiste em dizer
não ser sangue
o que corre
em tuas veias


Acontece
que todas as manhãs
insistem em ser
muito mais do que vãs


Beleza fragmentada
Enxergada através das frestas
Em ritmo de ritos,sarau, serestas


Também as de senso pueril
em caráter,em forma
vil


Sentimento sem contorno
encontra conforto
no seio daqueles que amam
e tramam

Queria
abrigar poesia
que vejo perdida
em cada esquina

Queria
abrigar todo sentimento
que a cada momento
desvia, se esquivado meu sonhar

Teria teu olharo poder de palavras?
Volto então a recitar
Canto dos pássaros
a ressoar

Música, a entorpecer
retorna ao teu ser
Ao contrário da tua Poesia,
que sem espelho, insistia
em pela janela perecer



Wagner Miranda

domingo, 26 de agosto de 2007

São Paulo




Foto: Wagner Miranda


São Paulo

Ainda vejo
algo de bom nas pessoas
Me preocupa o agora,
e todas as outras coisas

O céu se esconde atrás de nuvens
Me escondo atrás de um sorriso
Cansado
Perdido

Você sabe como eu me sinto?

Em tuas ruas
fuligem, vertigem
Descaso, asfalto
Assalto

Túneis, semáforos
todos sob medida
para máquinas obedientes
Obedientes?

Estruturas metálicas, implantadas
sob nossas cabeças, sob nossos pés
em movimento
Pavimento,
o novo sobre o velho aparente
esconde teu solo
doente

Abram alas
para nossas feras motorizadas
Que horas são?
Pergunto a uma fachada

Bom dia, São Paulo
Eu quero saber o que você faz por mim

Como nos cartazes
Exóticas, feias, belas faces
Boas e más almas
Transitam por suas ruas e calçadas
Apressadas

Enquanto acima de suas cabeças
Transitam promessas abstratas
Envolvidas por borracha
E conduzidas por um fio de esperança

O céu se esconde atrás de nuvens
Me escondo em subterrâneos, arranha-céus,
coletivos

Tua beleza repousa
na poeira,
Em clima indefinível,
Violento, impossível

Simples assim

Ainda seria
desrespeito, heresia
perguntar
O que você faz por mim?


Wagner Miranda

sábado, 25 de agosto de 2007

Margens



Imagem por Marcel Esperante


Margens


Luz apagada
Paisagem
imaginária
pintada na tela
daquela alma

Luminária

Reflita, artista
sobre a razão
das atrocidades que pinta
ao lidar com tinta
como se fosse puro sentimento

Tua dor é algo universal
E teu ápice, tua vida
se resume a um momento

De que são feitos
aqueles que dizem:
"-A vida é bela!"

Se retratos pintam dela
Como natureza morta
capturada e exposta?

Exposta, sim
Como resposta
Como troféu
pelos reles e gentio
Réu

E o veredicto vem
do mestre encurralado
e calado

Pelas vozes da multidão que pede bis
Sanidade hesita,
se detém por um triz

Antes refém
Agora, porém
se vai ao longe
para além do horizonte,
fina margem
da compreensão

para além da fronteira
do mundo idealizado,
dito são


Wagner Miranda

domingo, 19 de agosto de 2007

Reverberações




Foto: Wagner Miranda



Reverberações

Inútil, vil e vã: poesia
Vaga pelo espaço, transita
Tragada e trazida à tona
Pelos pulmões de uma nova geração

Aeroplanos vêm e vão, deslocam o ar
Desviam um aturdido olhar

Quem sou eu no meio de tudo isso?
Sou homem, monstro, menino?
Século de trevas, dor, abismo
E quem é você, diante de tantos compromissos?

Ferrugem repousa nas cordas da viola
que não mais viola o Silêncio

- O real é tudo o que não podemos tocar -

Há uma substância para cada tipo de enfermidade
E em cada vestígio de vida, efemeridade
Persistência do tempo
Reverbera em mim

A solidão está a caminho sobre trilhos metropolitanos
Na próxima parada vejo senhor Expectador,
habitante da cidade cinza, que expira Nicotina
Espiras



Seria um João? Alguém como ou você?
Que anda sobre o tênue fio da poesia?
Que me desafia?
Que me remete a Mallarmé?

Colírios,
relaxantes musculares
Há remédio para todos tipos de males

Fratura exposta
Assassinos de aluguel
Me sinto doente, sol me cega
não mais olho para o céu



Insistes em insultar o mundo
Poesia torta, assombrosa
Há um alvo
para todo tipo de cólera


Wagner Miranda

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

de nihilo nihil























Brand New Day, por Helen Duley
de nihilo nihil

antes,
no espaço
agora,
me desfaço

como raio
porém,
em espaço
delimitado

ser um ser
ou não ser?
melhor nem saber

que espera
estabelecer
O elo

desmitifique
todo o processo!

eu comigo mesmo
eu homem
eu, microuniverso

toda vida que rasteja aí fora
que me ouça agora
que me veja

eu só quero
amanhecer

réquiem
para o sentir
para toda ordem
subverter

ah, o tempo
continua a reagir
a submergir

e me desmerecer
do nascer,
do crescer,
do morrer

tardar
é sim,
muitas vezes
falhar

amadurecer
aprender e apreender
eu só quero
arborescer


Wagner Miranda

sábado, 11 de agosto de 2007

Adeus do porto




















Imagem: Vangelis Christou

Adeus do porto
para Haroldo de Campos

Parco
Espaço
Estilhaço
de um olhar

Vago
sorriso
de um Palhaço

Vertido em
estardalhaço

Vejo barco
abandonado
ao mar

Vestígios
Litígio
Profeta
Perdido

Estrelas
dependuradas
em tuas sombrancelhas
cansadas

Incenso
Incêndio
Radicais livres
Gordura
saturada

Marco
pontos cardeais
Linhas vitais
no mapa
do universo

Disperso
me despeço


Wagner Miranda