domingo, 15 de novembro de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
um

Foto: Cátia Burton
um
desconheço o amor
como única verdade
e só então renasço,
intrépido e inédito
e sob os fragmentos
de uma nova primavera
ressurge, silenciosa e singela,
esperança que me regenera
da prima devastação
parece fácil
se revelar estranho
pelo simples fato
de ser desconhecido
parece árduo o mergulhar
no azul opaco dos olhos rasos
daqueles que amam
e desconhecem serem amados
sou gesto
em mundo de palavras vãs
aquarela
em mundo monocromático
um milhão de raios
em um dia ensolarado
parece fácil escapar
da iminência de ser comum
parece tão fácil
se afirmar e não ser só um
me abrigo em teus braços
mares que desconhecem a dor,
nem tudo no mundo é estranho,
desamor
Wagner Miranda
domingo, 7 de dezembro de 2008
o amor segundo a vida

Foto: baikonur_cazaquistão, por Tuca Vieira
http://www.fototucavieira.com.br/
o amor segundo a vida
não, não vou lhe contar sobre sonhos
não quero ter pressa nem palavras
pois bem sabe, são bens de poetas
e de títulos não quero nada
e belas, estrelas para sempre perecem
sonhos nem sempre são irmãos
palavras nas estradas que desaparecem
viram presente para a solidão
a ti abro meu coração, vasto universo
vivi e senti o doce aroma do vinho a tingir
a primavera mais bela do que ela, solidão
a tremeluzir, a aterrisar
no azul imenso
de uma tarde qualquer
esperança, desabrocha sem demora
tardia estação que ainda mora
inocente e inerte no espelho cristalino de teus olhos
abrigo de tua,de todas, de minha alma
e mais tarde, quando tudo deu sinal de acabar
senti querer nunca existir, deixar de respirar
hospedei aperto no peito, desconcerto
amanheci para chorar
me vi ante a imponente face do destino
que em desatino enrubesceu
talvez nunca tivesse visto
algo tão imenso em tão pequeno recipiente
pequeno ser de carne e ossos, porém transcendente
disse a ele, em tom sereno
- tua presença não me acanha,
pois seguirei meu caminho
saiba que bem longe ela me espera
e sob o sol se banha, sob ondas descansa
a mais bela força da natureza, amor meu
e o que deuses não fazem
diante de tamanho milagre:
o amor segundo a vida
suave e transparente,
como a brisa do ocidente
pediu apenas
que ali deixasse minhas malas
pois era longa, ah como era longa
aquela estrada
parti.
Wagner Miranda
terça-feira, 30 de setembro de 2008
imperfeito

Foto: Leave me be, por Leonie²
imperfeito
em noites sem sono velado
hesita o sonho ora sonhado,
ora em vão
assim como amores e dores
que no verso e no verão,
surgem e partem,
simplesmente se vão
confio no amor doce abrigo
seria o mesmo de fato sentido?
se eu tão somente amasse
e amar em si já não bastasse?
seguiria são e sereno
vão e assaz tenaz
nítido e pleno?
perdida a inocência
entre a razão e o juízo
que como Narciso se reflete
na volatilidade da água e se perde
engolido pela vaidade e pelo vazio
destino de todo aquele que ama,
doce prejuízo
permaneceria denso em sentimento sob a noite fria
ainda a sentir o calor de teus laços
vitimaria a cada dia a solidão
com uma injeção letal e diária de descaso
é obscuro dizer amar
ao mesmo tempo sendo
um porto seguro
prefiro apenas voltar meu olhar
e em ti pensar
como algo além da esperança
pois na certeza de teus olhos
repousa a minha insegurança
Wagner Miranda - 29*09*08 - 00:24
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
o albatroz

vê, onde com tão frágeis asas
Ícaro inda menino
foi se esconder?
voa, desenha o riso mais bonito sem aviso
um risco no impenetrável azul
do céu adornado de verão
aprende, e comigo apreende
o mundo de significados
que semeamos no acaso
abriga sob frágeis asas a esperança,
ainda criança, ainda perdida
sem saber de onde vem o sonho
e tu, por tão pouco
reluz como ouro
quando este mundo enfim ruir
com olhos úmidos de compreensão
hei sobrevoá-lo como ti
que desperto, levanta-se
parte sem espera e ágil recomeça
sua jornada rumo ao sol
contorna e recorta a nuvem mais densa
reinventa tua existência
sangra no espaço um traço,
um rastro, uma prece
a um novo dia, um novo ser
que amanhece
prenuncia no horizonte
uma eterna volta para casa
no doce mover de tuas asas
se bem lhe ouço,
sei que ouço com minha alma
enquanto sorri gentil a face da manhã
por tuas asas acariciada
não é doce a dor do exílio
também não é de todo acre
o sabor do saber estar sozinho
parte veloz, ó rei do azul celeste, albatroz
para longe da mira de teu algoz,
expira a tua nobre alma
junto com a última gota de esperança
que emana de teu coração perfurado
mesmo em desgraça, ferido
e permite ao destino criar teu filho
agora sozinho, a te esperar em um ninho
bravo não é Prometeu, és tu, ave graciosa
que desafia a gravidade de viver
de maneira majestosa, em pura essência
bem sabe que humanos são seres profanos
que seguem abrindo lacunas, buscando preencher
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
micro filme [4:45 a.m.]

Foto por lifeisBuddhaful
micro filme [4:45 a.m.]
ainda a ver o céu barroco
de diamantes decorado
diante dos meus olhos raros,
desacordados
te amo com efeito,
além do certo e do errado
é doce o teu balbuciar
a ressoar e importunar
o egoísmo do meu sono,
implícito
da sutileza ao estrago
como é vasto o espaço
e não há busca, bússola
ou endereço que me oriente
me guio eu mesmo
com minha própria calma,
capturo em essência
o reflexo da tua alma
e sôfrego, me aconchego em teu seio
e apenas o aparente vazio,
de fato cinismo do silêncio
para incitar e desvelar
em ti despertar o que parece óbvio
teu soberbo observar
nosso diário compactuar
um compêndio, doce veneno
mesmo pelo cotidiano tragado
acordo para um sonho,
tão concreto quanto um afago
um mundo de fato,
resumido em teus braços
além de qualquer destempero
ou incerteza
permanece intacto meu pensamento
tela pintada com as cores raras
da tua beleza
desperta docemente banhada
pela luz do poente
imponente de tão alva,
magnificente
aquarela se revela em minha alma
e tão bela quanto ela,
se desvela com toda calma
força da natureza
em um moderno conto de fadas
amanhece sob a luz que lhe enaltece,
minha amada.
domingo, 20 de julho de 2008
glacial

Fotos por "3amfromkyoto"
http://www.flickr.com/photos/3amfromkyoto/
glacial
parte 1
volto a navegar
em mar de águas rasas
salgadas em milágrimas
eu, que costumava tanto te amar
Ó, mar…
de fronte,
o porto desperto
pela adocicada e cortante
brisa glacial da manhã
inda hei de acreditar
no amanhã?
de fronte,
um mudo olhar
o turvo horizonte
a paz que reina
ao longe, plácida
a chuva ácida
fez perecer
as flores
que tanto amava
e me banhou
em dores
bem sei
a elas jamais verei
e também a ti
e é tudo um mundo, eu sei
sem fundo, sem espaço
e sem fronteira
uma geleira
como é frio
o vazio deixado
no vago
e às vezes
esparso
espaço
entre meus braços

parte 2
idos de maio
abrigam-se
na sombra residual
do que fora a noite
quase tudo se foi,
tanta dor é
e já foi passado
é só solidão
é minha confusão
retratada em sépia,
ultravioleta
novo dia
inda refestela-se
diante do sol matinal
é bárbaro,
ouvir da folhagem o estalo
a lembrança a permanecer
em gotas de orvalho
se de soslaio
ainda lhe vejo
na soleira da porta
de minh'alma,
sua eterna casa
não contenho o riso,
vestido em saudade
fito teu reflexo
translúcido
lentamente a surgir
assim como raios de sol
frágil, porém espessa
de uma extraordinária beleza
de uma estrela solitária
que reflete enquanto descansa
no meio do longo caminho
perdida na jornada
de volta para casa
quarta-feira, 9 de julho de 2008
ponto de fuga número um

"The lovers", por René Magritte, 1928
ponto de fuga número um
odiamos
o terrorismo cult
do nosso Estado
o academicismo
intelectualizado, indiscriminado
em paredes ocas,
dependurado
coagulado
o idealismo juvenil
de outrora
ah, doce aurora
tudo o que era vivo
não mais inspira cuidado
foi tudo em vão
jogado fora
e agora?
status quo
hereditário
do estado em que sonhamos
acordados,deslocados
desolados
repousa
esta sua mente
por um instante
também repousa
o gigante,
sentimento nobre
empoeirado em estantes
da janela
observamos amantes
sentados, fitam o lago
já sem peixes,
contaminado
declaram amor
a seus planos,
sonhos brilhantes emanam
de estrelas mortas
banham-se em luz artificial
a mesma que varre as ruas
imundas da cidade
em busca de sobreviventes,
de novidades
devemos mesmo
ser tudo aquilo
que não queremos?
voltamos ao nosso quarto
nos entreolhamos aninhados,
amantes alinhados
pelos anos compartilhados,
brindamos e brincamos
assaltamos nossas lembranças
sorrimos e acenamos
e um futuro de imprevistos planejamos
depois disso, partimos
pela janela do quarto
cansamos daquele cenário
urbano demais para ser humano
este é o nosso último ato
Wagner Miranda
domingo, 29 de junho de 2008
carta a um sonho, poema ao mar

Foto por Luciana Teixeiras
J. Genet
carta a um sonho, poema ao mar
olhares são abraços
a cada segundo de contemplação
és felicidade a apenas um sonho de distância
e vem como o vento,
suave e lento que sopra nos montes
da natureza a mais bela orquestração
o ocaso no horizonte
és estrela maior em ascensão
a paz delineada em teus braços
laços, com perfeição torneados
flores verdadeiras sobrevivem
a qualquer estação
a toda e qualquer idealização
e comigo hei de te levar
onde quer que eu possa errar
na aspereza do asfalto
na imensidão do mar
adiante e confiante
etéreo e disperso como o ar
carrego a cicatriz de tua lança
em meu coração
amar é não saber da sabedoria
muito menos da razão
é ver estrelas pela abóbada da mente
flores verdadeiras sobrevivem
a qualquer estação
Wagner Miranda
terça-feira, 24 de junho de 2008
canção de um coração só

Foto: Heart-shaped, por Ana Paula
http://www.flickr.com/photos/analoca/
canção de um coração só
corações são artefatos
cuidadosamente confeccionados
a ferro e fogo forjados
para serem polidos,
para serem quebrados
de fato
e mesmo sob a luz da compreensão
condicionados entre o sim e o não
ao mesmo tempo são apenas o que são
frágil músculo de cor vívida,
mecanismo da vida
pré-requisito para toda a ação
quando correspondidos em alguns momentos
metaforicamente mudam de função
bombeiam alegria, espalham adrenalina.
se tornam mais do que realmente são
por outro lado, são de construção frágil
de conteúdo volátil
caminham lado a lado, empáticos
com o espírito
nos momentos serenos
nos momentos mais extremos
facilmente alvejados
quando apaixonados,
são alvo fácil da inocência
daqueles que vêem beleza
em suas próprias tristezas
razão de ser ou não ser
de deixar fluir o amar
ou seu fluxo bloquear
com um nó
deixa um soluço escapar
um sussurro encantar,
canção de um coração só
Wagner Miranda
quinta-feira, 19 de junho de 2008
ruído branco

para L.B.
incrível é poder dançar
na escuridão
sem deixar de sonhar em cores
da solidão
auto-reflexão em alta definição

Foto: Alto contraste, por Wagner Miranda
auto-reflexão em alta definição
a meu ver
viver
continua a ser
aviltante
interrompa
a transmissão
neste impreciso
e ao mesmo tempo exato
instante
...
Wagner Mirandadomingo, 15 de junho de 2008
réquiem (uno mundo)

Foto: returning to the same ocean, por Ali Khurshid
http://www.flickr.com/photos/alikhurshid/
réquiem (uno mundo)
a vista
estanque
avista o distante,
tremeluzente ocidente
o curso do rio
o horizonte,
docemente
abrigo de memórias
malas prontas, mesa posta
a paz caminha pelas margens,
pela costa
a respirar
brisa do mar,
a inspirar
o sopro da vida
me consola
multicolores
sentimentos caleidoscópicos são
todos vividos
uns, porém vívidos
outros pelo tempo perdidos
tantos outros em vão
fragmentos de outro outono
as mesmas folhas caídas,
envelhecidas
o abandono
finos galhos,
fortes remos
braços são
para avançar contra as ondas
de violência,
de amor, de descaso
da solidão
lágrimas escapam
de olhares que estilhaçam
pois alguém lhes disse
-É tarde demais
fitou o amor,
sem podê-lo tocar
criou canções
que nunca pôde entoar
invejou e amou o rouxinol
pelo encanto de seu canto
pela arte de voar
segue, rumo a terras distantes
a remar e remar
a inspirar,
expirar
inspirar para não expirar
suas órbitas cansadas são pérolas
enxergar sempre foi uma dádiva
a inspiração, uma folha em branco
o acaso, o vento
o rio expele
tudo o que lhe é estranho
traz à tona
filhos de náufragos
desastres oceânicos
hei de resistir
às suas queimaduras,
labaredas da tristeza
hei de respirar
com pulmões saudáveis,
mãe natureza
hei de sobreviver
a explosões nucleares
espelhos quebrados,
seres fragmentados
sorriem e procriam
em uma velocidade fascinante
dizimam nações,
nomeiam estrelas
almejam um dia tê-las
metralhadoras giratórias
tingem o rancor de vermelho escarlate
vermelho sangue,
vermelho desespero
distribuem posições, ilusões
ouro de tolo do maior quilate
a todas as nações
a pequenez do mundo
mais uma vez observou
através da lente trincada do amor
ah, o amor
que para si um dia sonhou
e outro mar chorou
para que dali pudesse partir
mas estava cansado demais para remar
não tinha mais medo, mas tinha certeza
de que sozinho não venceria a correnteza
disse adeus ao seu porto e ao mar
pegou carona nas asas e no canto
do rouxinol que tanto amava
para nunca mais voltar
Wagner Miranda
quarta-feira, 11 de junho de 2008
le petit papillon

Leaves Photogram, por Catherine [cedar_9]
http://www.flickr.com/photos/f777/
quis saber do teu olhar
que vivo a procurar
sob a luz parca,
que ilumina minha madrugada
conforto, porém
só encontro
quando lhe vejo
ou quando fecho os olhos
e com fé desejo
procurei
nos odores das flores
no perfume do campo, de lírios
algo fiel ao que sinto,
algo além de qualquer delírio:
o alívio que me traz
teu sorriso aveludado,
teu corpo ao encontro do meu abraço
abraço de amor declarado,
amor partilhado
quis saber dos teus planos
quis verter o cotididano
na plenitude de viver
o que sinto com quem amo
para do sonho enfim despertar
feliz por proclamar
que tenho um novo lar
agora bem sabes
que de tão bem lhe querer
desejo apenas em teus olhos
encontrar o meu alvorecer
Wagner Miranda
sábado, 7 de junho de 2008
|elipse|

terça-feira, 3 de junho de 2008
O Outsider

Foto: Penumbra, por Austin Tolin
http://www.flickr.com/photos/austintolin/
O Outsider
I
distante, urgente
da margem a observar
o novo passado,
o velho presente
dá margem,
interpretar
estático a observar
o lutar das ondas do mar
disformes a desgastar
rochas imóveis
fadadas
ao eterno
repousar
desafia a inércia,
poder da expectativa
e a estética
mesmo estático
não cede,e prossegue
neste estado
filho bastardo de seu tempo,
tempo de maus tratos
II
em sua eterna andança,
aprecia a bela dança
dos pássaros
aparentemente de passos
milimetricamente calculados
ensaiados
bailam no azul profundo,
magistral
para outros, teto do mundo
em interpretação marginal
caminha descalço
sobre areia cortante,
disforme, diante da intempérie
nem tudo o que reluz é vidro,
e mesmo assim fere
III
segue, a maltratar
o vazio de cada dia
o vazio sentido
que empregamos
às nossas vidas
uma pura mentira
um brinde ao medo
ao puro e simples medo
deste nosso momento
indubitavelmente terreno
alguém que dá formas a sentimentos
transforma-os em beleza
diante da cacofonia de lamentos
do nadar contra a correnteza
do medo, do diário tormento
esculpe o viver,
como não proeza
pois herdou do artesão a destreza
de dar vida e formas
a árvores mortas
a um novo amanhecer
que o mundo não vê
diz a si mesmo,
diz a ti, a esmo
- O mundo está morto!
e segue em pensamentos, absorto
Wagner Miranda
segunda-feira, 28 de abril de 2008
miríade de estrelas

Foto: Beatriz Rodrigues http://www.flickr.com/photos/plumocancer
miríade de estrelas
me enterneci em teu olhar estático
miríade de estrelas
me redescobri em sonhos,
a te aninhar em meus braços
vislumbrei cada segundo
e em prazeres vis
encontrei meu lugar no mundo
em lábios tenros e eternos, gentis
lhe descrevi com maestria
em palavras nada poéticas
pois nada disso
era tudo o que eu tinha
relato meu nobre desejo
intrerrompo meu longo caminhar
encontro abrigo em teu seio
e me ponho a descansar
me embriaguei
com o silêncio da noite fria e do pensamento
contra toda a calmaria que à minha porta batia
não me esqueço, não me condeno
me perguntei aonde tal sonho me levaria
implorei por um pouco de alento
enquanto minha vida decidia
ao me fazer caminhar sob a perversa e fina garoa
lhe despertei de teu sono com um beijo
prematuro e inconseqüente
despertei de meu sonho
agora não mais lhe vejo
e se errar é de toda forma possível
por teu bem lhe digo
que o amor não faz sentido,
se apenas sentido como figurado
Wagner Miranda
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Subversão da submersão (d'além-mar)

Foto: Lonesome, por Nekominn
http://www.flickr.com/photos/tanktv/
Subversão da submersão (d'além-mar)
sopro a consciência,
para além do cais
e com ela também se vai
a aquiescência,
a negação da ciência
os pontos cardeais
errando, em desatinos
em um barco, cujo casco
está para sempre partido
partido
mergulho por entre corais
tão belos e frágeis, mortais
tão logo penso em voltar,
pois em tudo vejo mar
por um momento esqueço
o navegar
e me deixo naufragar
sem me queixar
por não saber diferenciar
oceano, mar
e ao retornar,
repouso sobre o dorso da onda mais mansa
de ventura abundante, sem deixar que se abrande
a chama crepitante da tua lembrança
da tua lembrança, meu abrigo
que arde com chama e descansa
em meu peito cativo
chama da vida
que para a superfície me chama
seremos então
para sempre como o porto?
a ver o haver mal chegar
e tão cedo partir?
a assistir
aparentemente vivo, porém passivo
a tudo aquilo que ainda lhe é novo
submergir?
Wagner Miranda
domingo, 20 de abril de 2008
A poética da violência

Foto: Stop them forever, por Wagner Miranda
A poética da violência
I
hesitou
diante de mais um
amanhecer
ao ver o sangue
inocente
de muitos
pelo ralo do mundo
o vasto
o impiedoso
escorrer
e em tudo o que pode ver
o que mais poderia me dizer
sobre viver?
o sobreviver
e no teu riso
vejo crime
para muitos, castigo
por um crime
não cometido
por um momento
ofegante,
de seu berço, distante
culpou o destino
por ver a si mesmo
fugindo, perdido
por ter crivado uma bala
no peito de seu melhor amigo
II
vivemos em uma terra
em uma era
em que respirar
se tornou um risco
enquanto sua rival, a morte
nos escolhe a todos
por livre arbítrio
as balas varam o absurdo,
o impossível
no meio de tudo isso
caminha, caminhava
tua honra, perfurada
em direção ao desconhecido
o destino
adiante
no caminho sem volta
tua esposa sangrava
com uma bala alojada em seu frágil ventre
onde guardava teu filho
fruto do que plantara
teu vínculo único
com esse mundo
sangrava
sem saber
que com sangue brindava
o sofrimento,
o absurdo
a vinda ao mundo
e a incerteza de mais um
futuro
III
e como muitos,
andaste em desencanto
sob o sol, a chuva,
o céu em prantos
meteórico,
passaste tão depressa
sem deixar rastro de sua
sua demência
e a confusão a jorrar
de um peito
um alvo
a consciência
e teu sangue se entorna
quando torna a ver o reflexo
de ti, homem morto
maltrapilho
em prédios espelhados
nas vitrines da cidade
e se lembra de todos a quem rejeitou
o pedido de clemência
o último pedido
o último suspiro
IV
sozinho observa passar
o famoso trem de falsa prata
pelos trilhos de ouro
da metrópole
advindos de nosso suor
e a escadaria, antes imóvel
agora se move para o meu conforto
E contigo seguimos,
tudo por um passo à frente da dor
V
e não há ciência
que faça sentido
diante do milagre
da violência
que não protege,não evita
o vírus que se dissemina
e hoje, a muitos incrimina
pelos golpes desferidos
em nome de tua cólera
e em termos lhe compreendo
e contigo lamento
em sua solitária volta para casa
em teus olhos a brasa
da vida consumida
pela chama crepitante
do revolucionário
com seus sonhos juvenis de liberdade
do desconsolo, o que lhe resta?
o viver sem lutar
o viver em um lugar
onde o homem engana
a própria realidade
quisera clamar aos céus
para que tivesse uma vida menos patética
mas é tarde demais
loucos são os que sabem quem são
e sentem escrever suas palavras em vão
sua vã poética
Wagner Miranda
sexta-feira, 28 de março de 2008
1968

ouço anjos, mutilados
a roer os grilhões
do tão falado, aclamado
mundo racional
notícias os contaminam
rapidamente, disseminam o mal
o nada simples de fato,
o ato
a descrição da assombrosa discrição
de um ato criminoso,
contradição, o sofrimento a emergir
o medo e o novo,
fundadores de uma nova religião
vestem com seriedade, de trejeitos
as encobertas atrocidades
os fins, meros pretextos
para as eternas meias verdades dos meios
na terra dos subjugados
ainda vejo muitos,ilhados
em meio à turbulenta tempestade da informação
devaneios da comunicação
anjos, mutilados
nem mais pelo sonho
confortados
em notas e relatórios
na imensidão do inevitável
caos pelo homem criado
em horrores, meticulosamente calculados
em mar revolto de sangue, mergulhado
algozes atrozes
em seções extraordinárias
senhoras retóricas vindas à luz
novo mundo, admirável!
sábado, 15 de março de 2008
em cores

não deixa rastro teu amor
por ter sido vasto o caminho
trilhado por um passo além da dor
sair um dia então, para avistar
o quebrar das ondas do mar
hei de partir, hei de voar
e ao ver o nascer
de uma nova aurora,
bondosa a me saudar
reviverei tudo o que vi
e vivi de forma meteórica
e minha volta brindar
com abraços e sorrisos
de meus incontáveis amigos
parceiros de sonhos
e ideais antigos
sonhos de revolução,
de desilusão
vivamente retratados
na minha mente
lembranças de uma vida
jamais vivida em vão
eu digo, eu sei
que minhas cores são mais vivas
e com elas pintei o céu que agora contemplo
vivacidade para além da
compreensão
das cores nada abstratas
do sim e do não
daquelas que marcaram o fim
de mais uma primavera
de um novo verão
sábado, 1 de dezembro de 2007
em sua desventura

me encanta
seu traidor
e mesmo na ausência de toda sorte,
na presença de toda dor,
lhe oferece em troca teu riso,
uma declaração de amor
meu passaporte para um lugar
onde tudo faz sentido, um abrigo
onde nuvens
não são feitas de algodão doce
elas têm sim, diversos sabores
que nós, homens
jamais saberemos descrever
sozinha não está,
a caminhar e se admirar
com a beleza das rosas e das estrelas do céu e do mar,
contigo estou, em sua desventura
de quem sem saber procura
pelo simples absurdo
de fazer e ser feliz
a tentar imaginar
como são
os frutos gerados
pelas sementes da imaginação
sou às vezes amigo de minhas palavras
refém de um turbilhão de sentimentos
e de tudo o que se move, a todo momento
é que nesse mundo não temos espelho
quero que saiba ainda assim
que o não proferido será sempre mais rico
não por ser o óbvio não expresso
mas por ser a demonstração do quão belo
é o ato de saber contemplar
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Andarilho

Foto: Wagner Miranda
Andarilho
I
O mundo, imundo
não pode lhe ajudar agora
Levanta-te, pois sabes
que já é hora
de mostrar coragem
Não sabe por quanto tempo tem andado
em sua longa viagem
E do teu sopro da vida mendigado,
quanto lhe resta?
Indignado
Não herdaste
dos poucos a boa-sorte
Nem tem passaporte
para a morte
que habita velhas ruas estreitas
Sombras esguias
não lhe provém conforto
Eu sei, não estás morto,
mas mesmo assim precisa descansar
Compreendo seu desalento
pois como eu sabes
que a morosidade da cidade
aos poucos nos mata
Veneno se propaga
Lhe pergunto o que sabes
sobre o teu destino
em um momento de devaneio,
desatino
Mas logo desisto,
pois vejo que tudo que nesse instante se deforma
dá forma
ao teu sentimento
II
Sou aquele que vê o sol nascer
da janela de um trem
Aquele que sente
a dor de uma maioria,também
Dia após dia
madrugada adentro
Sangue, suor
preces, lamento
Aquele que aperta o passo
para ao meu destino chegar
antes dos primeiros raios de sol
Antes do mundo me enxergar
me condenar
Pareço até temer esse mundo
e eu o temo
No pôr do sol encontro a tristeza
Quando a noite cai, digo-lhe:
-Decifra-me!
E ela me devora,
com todas as minhas fraquezas
Digo ao mundo
para que quando me vir,
não acene, não encene um acaso
Pois nem a estrada,
nem o sono perdido na madrugada
Irão me mudar
Não, não
Nem armas à mostra
Nem tão longe que eu possa
caminhar
Nem corações feitos de pedra
Nem a tristeza que nos traz a guerra
Nada vai me mudar
Wagner Miranda
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Paisagem

Foto: Sunset Silhouette, por Prescott
http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=358174239&size=l
Paisagem
Vestiu a paisagem
com extrema beleza
e com destreza,
transformou tudo em torno em ouro
E mais e mais verdes
tornaram-se as colinas
antes ruínas,
agora coloridas
Pela nova estação
por ti trazida
Pois és serena,
mulher,
natureza
Rainha
do meu tão falado oceano
Cura para o meu desapego
com o mundo,
meu desencanto
Wagner Miranda
sábado, 10 de novembro de 2007
Marianne

Atroz contradição a da cólera; nasce do amor e mata o amor.
Simone de Beauvoir
Antidepressivos
Ela quer perder o controle,
vencer o juízo
Amor,
Ontem tão doce
Improvável de acontecer
Hoje, algo que infelizmente tende a crescer
E ela tenta se desvencilhar da dor
De qualquer maneira
“Sou como Virginia Woolf", devaneia
Mas o tudo o que vejo é nada, o nada
Dança,
Como uma pequena criança
Radiante, até que a noite se faça distante
Às vezes ela sabe causar furor,
Definitivamente, sua arte é causar furor
E em seus sonhos, tem o poder de amar
seus amores, autores de todos os livros
aos quais pôde se dedicar
Só pode ter ao seu lado
um pobre garoto,
mais um belo rosto desolado
Até que a noite a consuma
Até que a noite a consuma
Amar de novo?
Mas como, se agora ela só acredita em amor materno?
Ou talvez naqueles descritos em livros
Mas nem os livros são eternos
Ela não acredita mais em coisas assim
Por isso se afoga
Em mares e mares que chora
Um sem fim
Pois não há
Mais tempo para ficar
debruçada na janela, à espera
de um Anjo bom e gentil
Violada para sempre,
inocência pueril
A única que poderia
Marianne, o que foi que você fez?
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Despertar
Despertar
para J.J
I
Estivemos a esperar
pelo seu despertar
Bem no fundo, a saber
que palavras de ordem
não podem
te parar
Por onde esteve,
quando ausente?
- Vagando pelos verdes campos
de sua mente
E como resposta,
deu as costas ao velho mundo
Um mundo
de tantas faces e falares
Que fez da violência
seu conceito de cidadania,
pacto
de sobrevivência
Esteve enfurnado
em um quarto
cansado
de vislumbrar o sol frio, magistral
pintado sob o seu telhado
enquanto deitado, entoava
em tom teatral
uma canção a si próprio
em um momento
de pura contemplação
ao teu universo,
puro e inócuo
II
Usam contra ti
o poder e a glória
a fúria e o som
de palavras muitas vezes frustradas
Eterno confronto
entre mundos
hoje retrato
emaranhado de grandes obras
E quem é que vai espalhar tuas cinzas
pelos verdejantes verdes vales da complacência
se a consciência, para ti
agora não passa de um vale distante
Tardiamente resolveu
se decepcionar com aquilo que tão bem conhece
Aquilo que delimita, como um profeta
Quando, com os olhos do grande poeta
viu o mundo através de um diamante
Triste hora aquela
em que viste apenas sombras
a se multiplicar
Triste hora aquela
em que zombaste
da passividade
do que passa
Diante da janela
daquelas pobres almas
E os passos lentos to passado
Se disfarçam de cura
Que eles avidamente consomem
É assim o mundo?
Não! Assim é o homem!!!
Loucura
cura?
III
Ouço tua poesia os assombrar
nos mais diversos idiomas
tua voz, como vento a soprar
pelas ruas
apenas ela, suja
ao som de tambores
surrados
como um doce(?) açoite
enquanto o rio
por vezes
turva
mas a vida prossegue
e com ela
ele revolve
e segue
seu curso natural
IV
E para muitos,
és filho pária
de uma pátria desalmada
Legítimo fruto da farsa
da democracia
familiar
És transparente,
agressivo
teu realismo é imoral
Refugo social!
Onde esteve,
enquanto ausente?
pelos caminhos tortos da Capital
A seguir, pelas Margens,
para o bem e para o mal
Observador, pintor
Autor da história, do relato, imagem
de toda uma decadente linhagem?
- A colecionar sonhos baratos
enquanto aquele lhe abolira
no passado
agora repousa
ali, assassinado
palavras de ordem
não podem
te parar
V
quantos sonhos
se constituem
a partir de uma vaga,
por vezes singela
promessa?
e da promessa,
se constrói, se molda
o outro, o amanhã
que como os becos, lhe acomoda
lhe ignora
lhe corrói
E veja bem
o neo-narcisimo
o niilismo
Obrigado,
mas estou farto
do falso lirismo
dos tempos de guerra
do silêncio
da mágoa
e do Ego, que vocifera
VI
-Vejo esperança como o etérea
Pois então como pode,
no meu vagar
por entre terras e mares
Continuar viva em mim?
Se é ela que insiste, não me queixo
Se sobrevive diante do ódio,
És verdadeira
Parte de mim
Vejo daqui sorrir
o poeta,
mesmo descontente
que observa o mundo
pelas frestas de sua alma
Sua janela
Que no mundo sofre,
por tanto saber caminhar
Por viver sem saber
quem é hoje
o que foi ontem
EnFIM
-Haverá mais sombras
ou telhado de estrelas
sobre o teu jardim?
Wagner Miranda
sábado, 29 de setembro de 2007
Oceano

sentimento
resplandecente
coração
como os tênues, finos
pingos de chuva
pintam de azul
o soberano
e o tempo todo,
eu insisto, ouso
em te comparar
com os elementos essenciais da natureza
bem sei, não deveria fazer
comparações desse tipo
simplesmente porque
nasceste como eles,
daquele mesmo ventre
tão pura,
de tantas belezas e sentimentos,
em momentos
tão prematura
e todas noites
quando me vejo em ti
imenso mar,espelho
a desenhar as estrelas
que brilham no meu céu
e entre nuvens dançam,
para meu contento
encontro
minha própria paz de espírito
e você bem sabe,
fazes parte de tudo isso
tempo dança
diante de nossos olhos
entre lembranças, vinho tinto
e esperança
e não há
mais confusões
para me importunar
apenas
bela, a luz
a emanar
do meu de olhar
cansado
enquando o mundo
tanto pesa sobre meus ombros
uma luz brilha sobre mim
sobre ti
me rio,
me faço grato
podes ouvir?
e isso parece tão claro
ouça meu canto
enquanto lanço
sortes e versos,
preces ao mar
guiado por ti, errante
pelos caminhos sinuosos
do amor
você, minha pura e doce salvação
estandarte para o amor
primoroso verso
motivo
pelo qual vivo
nesse mundo frio,
arredio
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Toada

Imagem: Autumn Trees, por Egon Schiele (1911)
Toada
Amada etérea
Beleza eterna
Repousa
Em cada movimento
Voa, toada
Como a folha ressecada
guiada pelo vento
Chega até minha amada,
Em sua mais bela forma
Alento
Mas ela renasce
Todos os dias
No despontar de cada
raio de sol
Me traz notícia,
página de jornal
Enquanto lembranças ecoam
do meu quintal
Natureza morta
Folhas de outono
desprendidas
diante da minha porta
Ó, Sol poente,
Ó, Estrela cadente
Vede, que nem a Lua sorri
Queria ela
que Primavera
estivesse aqui!
Wagner Miranda
sábado, 1 de setembro de 2007
Canto

domingo, 26 de agosto de 2007
São Paulo

Foto: Wagner Miranda
São Paulo
Ainda vejo
algo de bom nas pessoas
Me preocupa o agora,
e todas as outras coisas
O céu se esconde atrás de nuvens
Me escondo atrás de um sorriso
Cansado
Perdido
Você sabe como eu me sinto?
Em tuas ruas
fuligem, vertigem
Descaso, asfalto
Assalto
Túneis, semáforos
todos sob medida
para máquinas obedientes
Obedientes?
Estruturas metálicas, implantadas
sob nossas cabeças, sob nossos pés
em movimento
Pavimento,
o novo sobre o velho aparente
esconde teu solo
doente
Abram alas
para nossas feras motorizadas
Que horas são?
Pergunto a uma fachada
Bom dia, São Paulo
Eu quero saber o que você faz por mim
Como nos cartazes
Exóticas, feias, belas faces
Boas e más almas
Transitam por suas ruas e calçadas
Apressadas
Enquanto acima de suas cabeças
Transitam promessas abstratas
Envolvidas por borracha
E conduzidas por um fio de esperança
O céu se esconde atrás de nuvens
Me escondo em subterrâneos, arranha-céus,
coletivos
Tua beleza repousa
na poeira,
Em clima indefinível,
Violento, impossível
Simples assim
Ainda seria
desrespeito, heresia
perguntar
O que você faz por mim?
Wagner Miranda
sábado, 25 de agosto de 2007
Margens

Imagem por Marcel Esperante
Margens
Luz apagada
Paisagem
imaginária
pintada na tela
daquela alma
Luminária
Reflita, artista
sobre a razão
das atrocidades que pinta
ao lidar com tinta
como se fosse puro sentimento
Tua dor é algo universal
E teu ápice, tua vida
se resume a um momento
De que são feitos
aqueles que dizem:
"-A vida é bela!"
Se retratos pintam dela
Como natureza morta
capturada e exposta?
Exposta, sim
Como resposta
Como troféu
pelos reles e gentio
Réu
E o veredicto vem
do mestre encurralado
e calado
Pelas vozes da multidão que pede bis
Sanidade hesita,
se detém por um triz
Antes refém
Agora, porém
se vai ao longe
para além do horizonte,
fina margem
da compreensão
para além da fronteira
do mundo idealizado,
dito são
Wagner Miranda
domingo, 19 de agosto de 2007
Reverberações

Foto: Wagner Miranda
Reverberações
Inútil, vil e vã: poesia
Vaga pelo espaço, transita
Tragada e trazida à tona
Pelos pulmões de uma nova geração
Aeroplanos vêm e vão, deslocam o ar
Desviam um aturdido olhar
Quem sou eu no meio de tudo isso?
Sou homem, monstro, menino?
Século de trevas, dor, abismo
E quem é você, diante de tantos compromissos?
Ferrugem repousa nas cordas da viola
que não mais viola o Silêncio
- O real é tudo o que não podemos tocar -
Há uma substância para cada tipo de enfermidade
E em cada vestígio de vida, efemeridade
Persistência do tempo
Reverbera em mim
A solidão está a caminho sobre trilhos metropolitanos
Na próxima parada vejo senhor Expectador,
habitante da cidade cinza, que expira Nicotina
Espiras
Seria um João? Alguém como ou você?
Que anda sobre o tênue fio da poesia?
Que me desafia?
Que me remete a Mallarmé?
Colírios,
relaxantes musculares
Há remédio para todos tipos de males
Fratura exposta
Assassinos de aluguel
Me sinto doente, sol me cega
não mais olho para o céu
Insistes em insultar o mundo
Poesia torta, assombrosa
Há um alvo
para todo tipo de cólera
Wagner Miranda
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
de nihilo nihil
antes,
no espaço
agora,
me desfaço
como raio
porém,
em espaço
delimitado
ser um ser
ou não ser?
melhor nem saber
que espera
estabelecer
O elo
desmitifique
todo o processo!
eu comigo mesmo
eu homem
eu, microuniverso
toda vida que rasteja aí fora
que me ouça agora
que me veja
eu só quero
amanhecer
réquiem
para o sentir
para toda ordem
subverter
ah, o tempo
continua a reagir
a submergir
e me desmerecer
do nascer,
do crescer,
do morrer
tardar
é sim,
muitas vezes
falhar
amadurecer
aprender e apreender
eu só quero
arborescer
Wagner Miranda
sábado, 11 de agosto de 2007
Adeus do porto

Adeus do porto
para Haroldo de Campos
Parco
Espaço
Estilhaço
de um olhar
Vago
sorriso
de um Palhaço
Vertido em
estardalhaço
Vejo barco
abandonado
ao mar
Vestígios
Litígio
Profeta
Perdido
Estrelas
dependuradas
em tuas sombrancelhas
cansadas
Incenso
Incêndio
Radicais livres
Gordura
saturada
Marco
pontos cardeais
Linhas vitais
no mapa
do universo
Disperso
me despeço
Wagner Miranda

